Siga a Música

O homem que não tem a música dentro de si e que não se comove com a doçura dos sonestá sujeito a esquemas, traições e perdas.

Os movimentos do seu espírito são sombrios

como a noite, e as suas afeições são escuras

como o Deus das trevas.

Não confie num homem assim!

Siga a Música!

Shakespeare, O Mercador de Veneza, citado por Kandinsky em “Do espiritual na arte”                                                                                                      

O problema original

Estudando um pouco a antropologia moderna percebemos que o verdadeiro problema original do ser humano é sua relação ambígua com a natureza. Quando o homem atinge o nível “sapiens”, em torno de 100.000 anos atrás, ele se vê dentro da natureza, mas percebe que não faz mais parte integral dela, porque ele sente que pode julgá-la. E ele percebe que sua condição de existência não é permanente e assegurada:             ele percebe que sua existência é finita, e que terá que morrer, desaparecer, ser extinto, dele restando apenas um corpo inanimado.  Esta é a consciência que o leva a tentar transcender esta condição através de heroísmos e símbolos padronizados.

A natural e inevitável ânsia em negar a mortalidade e alcançar uma autoimagem heroica são as causas primarias da maldade humana. A ferramenta maior para a subsistência nesta condição é a autoestima. O homem fará tudo o que for possível para se impor aos seus convivas, mostrar sua superioridade, e realizar algo que possa ser lembrado para assegurar sua “permanência” no universo. E esta é a maior fonte de angústia do ser humano.

Esta solidão vai leva-lo à busca de outras entidades, ao misticismo, e ao desenvolvimento do ritual para se manter dentro desta natureza, que ele não entende. E ele então vai rejeitar a natureza porque quer estar acima e dela usufruir.               Mas, ele não cria os deuses, porque os deuses e os demônios já estão dentro dele, ele só cria o ritual, que é uma técnica para dar vida. Ao longo de toda a pré-história o homem acreditou que podia controlar a vida, que podia transferir a vida de um local para outro mediante cantos e danças, e num sentido mais amplo, fazer a renovação de todo o universo, do sol e da terra e criar vida, incluindo a alma individual.

 A preocupação do homem primitivo é a sua “permanência”, sua continuidade, e esta aspiração permanece no homem moderno, que também não quer “morrer”, e quer ter uma “vida após a morte”, que sua “alma” tenha continuidade. Para o homem primitivo a morte é frequentemente considerada uma promoção final da alma a um estado de poder super-humano e durabilidade eterna, sentimento que permanece em muitas religiões.

A história humana se divide em dois grandes períodos, o primeiro desde a pré-história caracterizada pela visão ritualista da natureza, e a segunda, a partir da Renascença e do Iluminismo, caracterizada pelo domínio do processo científico e da industrialização, e sua visão do mundo. 

A superioridade que o homem adquire sobre os demais, pela sua capacidade de se distinguir ou superar contendores, se traduz em poder, e este poder vai conduzir os seus caminhos sempre. Mas a natureza também lhe deu uma fantástica capacidade de imaginar, sonhar, e percorrer os mais extraordinários caminhos intelectuais: criar a ciência e as artes, formando o que chamamos de cultura…palavra que deriva de culto!

A sociedade primitiva era uma organização formal para a apoteose do homem. Nossos rituais de hoje parecem superficiais exatamente porque perderam a conexão cósmica. O homem primitivo humanizou os céus e espiritualizou a terra unindo-a com o céu numa unidade inextricável. Opondo cultura e natureza desta maneira , o homem  assumia um destino espiritual que permitia transcender sua condição animal adquirindo um status especial: não era mais um animal que morria e desaparecia da terra, ele era um criador de vida que também podia ganhar a vida eterna através dos ritos comunais de regeneração cósmica.

Das muitas religiões que se formaram entre o quinto século AC e o primeiro século atual, uma chegou a propor que o ser humano tivesse um pecado “original” congênito, refletindo a “queda” e expulsão de um “Paraíso” imaginário do primeiro casal de humanos, fantasia que acompanha muitos crentes até hoje.

Mas o ser humano primitivo realmente carregava uma culpa:     sua insegurança e incapacidade de se entender um animal que sabe que não faz mais parte integral da natureza.                                         Esta é a culpa que ele carrega e que o leva ao ritual e ao sacrifício, imprescindível para sua realização.                                                                                                             E tudo mais que ele fizer será para superar esta culpa.                                Sem jamais esquecer que é apenas um animal.

Resumindo:

o grande problema do ser humano é o fato de…ser humano!    

(aliás, a verdadeira razão para entender porque nunca deixará de haver racismo!)

Ref. “Escape from Evil, Ernest Becker, 1975                                     

Rodin

“Em retratos de pessoas do nosso sexo nós devemos penetrar sem piedade os recantos mais profundos de suas almas, despi-los de seus disfarces, e expor abertamente as intemperadas e viciosas paixões que afloram neles todos os dias…

Mas o retrato de uma mulher é outra coisa, elas têm outra natureza que estamos muito longe de compreender; por isso devemos ser muito respeitosos e discretos. Devemos ser cuidadosos em desvelar seu suave e delicado mistério. 

Mesmo com elas, sempre a verdade, mas nunca toda a verdade.

Algumas vezes poderemos baixar o seu véu,

                                                                           um pouquinho.”

foi o que Rodin, já com certa idade, teria dito a um de seus assistentes

                                      em “Rodin” de Albert E. Elsen, Doubleday, 1963                                           

O Mestre da Música

A você que ama os amantes, seja este o teu lar:

Seja bemvindo! Ao fazer a forma,

O amor fez esta fôrma que funde a forma,

Tendo o amor como porta, e a alma como saguão.

Na luz, junto à janela. Esta dança é a sua dança.

Nós raramente ouvimos a música interior,

E apesar disso dançamos ao seu ritmo

Dirigidos por aquele que nos ensina

A pura alegria do Sol, o nosso Mestre da Música.

Quando estou com você, ficamos acordados a noite inteira,

Mas quando você não está, eu não consigo dormir.

Agradeço a Deus por estas duas insônias

E pelo que elas são diferentes.                                                                   

No momento em que ouvi minha primeira história de amor,             

Comecei a te procurar, sem entender minha cegueira.

Amantes não se encontram apenas em algum lugar:

Eles estão dentro de si mesmos, o tempo todo!

Nós somos o espelho e a imagem dentro dele,

E neste momento nós sentimos o sabor da eternidade.

Nós somos a dor, e também o que cura a dor, ambos.

Nós somos a doce agua fria e o jarro que a derrama.

Eu quero segurar-te junto a mim como um alaúde

Para que possamos chorar com amor.

Você prefere atirar pedras num espelho?

Eu sou teu espelho, e aquí estão as pedras.

                          Jalal ad-Din Muhammad Rumi, poeta persa do Séc. 13

A Flor de Lotus

Perambulo pelos caminhos e pela experiência da universalidade

para que a brilhante luminosidade

da minha alma imortal se abra dentro  das  profundezas do lótus,

centro da minha consciência despertada,

e eu seja inundado  pelo êxtase de romper     por todas as barreiras e horizontes!

Richard H. Blyth, em interpretação pessoal dos sentimentos evocados pelas inscrições “OmMaNiPaDmeHum” encontradas em pedras nas encostas dos caminhos ao Tibet.Em “Zen Classics”, Hokusaido Press,

A tragédia…da tragédia 

A  partir de uma passagem em “Aspects of Wagner” de Brian Magee

O ponto mais alto jamais atingido pela criatividade humana foi a tragédia Grega. Ela combinava com sucesso todas as artes:  a poesia, o drama, vestuário, mímica, música instrumental, dança, canção, arquitetura e iluminação, e por isto tinha maior força de expressão do que qualquer das artes por si. Além disto, a tragédia retirava seus temas da mitologia, que ilumina a experiencia humana na sua profundidade, e de maneira  universal.  

O que é peculiar ao mito é que ele é verdadeiro para sempre, e seu conteúdo, mesmo quando tenso ou compacto, é inesgotável  e válido em qualquer época. Tanto o conteúdo como a forma de apresentação do mito têm  um  significado religioso, mas esta religião é a do essencialmente humano, uma celebração da vida, como no coral de abertura da Antígone de Sófocles: “Inúmeras são as maravilhas do mundo, mas nenhuma é tão maravilhosa quanto o Homem…”

Esta maneira de apresentar a arte era ideal por que ela se expressava através de todas as suas formas e sua temática refletia toda a experiencia humana, e principalmente por que toda a comunidade participava de sua execução: era a celebração da vida. Mas com o tempo ela se desintegrou, e cada arte seguiu seu próprio caminho: música  sem palavras, poesia sem musica, drama sem música nem poesia, e assim por diante. E o seu conteúdo acabou se desfazendo quando o Cristianismo veio substituir o humanismo grego.

O Cristianismo é a religião que colocou o homem contra si mesmo, ensinando-o a olhar o seu corpo com vergonha, as suas emoções com suspeita, a sensualidade com temor, e o amor sexual com sentimento de culpa. Ele ensina que esta vida é um tormento, que este mundo é um vale de lágrimas, e que nossa capacidade de suportar o sofrimento será recompensada apenas depois da morte, que é a porta  para a eterna  felicidade. 

Esta religião só poderia ser contra a arte. A alienação do homem de sua propria natureza, especialmente de sua natureza emocional, a profunda e generalizada  hipocrisia que esta atitude geraria ao longo dos tempos, a desvalorização da vida e do mundo e consequentemente da sua excepcional beleza, a idéia de o homem ser não um deus mas um verme cheio de culpa, tudo isto é profundamente contrário à própria natureza e à existencia da arte.

Esta religião, baseada que é na celebração da morte e no repúdio às emoções, rejeita o impulso criativo e seus temas de expressão.

A arte é uma celebração, explorando a vida  em todos os aspectos. Se a vida não é importante –  mero preludio para uma outra vida  que deve começar com a morte – então a arte também não deve ter importancia  e é inteiramente dispensavel. No mundo ocidental, a  arte só voltará a merecer a verdadeira atenção dos homens á medida que lentamente se apaga a força do Cristianismo, a partir da reforma luterana e com a evolução do pensamento científico, de Spinoza, Descartes, Bacon, Newton e Darwin, que levam ao secularismo e aos direitos do indivíduo.     

Na Renascença vai lentamente ressurgir a força do mito (e da tragédia) em Dante (A Divina Comédia), depois em Shakespeare (Hamlet, Romeu e Julieta), em Goethe (Fausto), e principalmente na restauração da obra plena, da ópera integral em Mozart (A Flauta Magica, Don Giovanni), Verdi (Aída),  em Wagner (Siegfried e os Nibelungos, Parsifal), e  em Strauss (Salomé, Elektra). 

Terão sido duas grandes guerras, a bomba atomica, a ameaça soviética, e o ressurgimento dos fundamentalismos religiosos os causadores de uma alienação dos mitos, e da atual estagnação…    dita “pós-moderna”?                                 

Ou seria esta uma visão “tradicional”, na qual a religião não se confunde com o mito? Qual é a diferença entre mito e religião?    Nós estudamos “mitologia grega”, que inclui desde a lenda do minotauro de uma civilização pré-helênica até os deuses do Olimpo, que eram as figuras de uma verdadeira religião, para historiadores  a “religião tradicional” que depois viria a ser  conhecida erroneamente como “paganismo”.

Talvez o correto seria distinguir entre os mitos históricos, comuns a todos os grupos humanos desde a sua formação, que encontramos tanto entre as tribos africanas ou ameríndias como em Homero, a Guerra de Tróia e as provações de Ulisses, e os mitos religiosos, que pretendem explicar e conduzir os destinos humanos. 

Sob esta perspectiva, também não passam de mito os deuses do vale do rio Indus descritos pelos Vedas e no Baghavad-gita, por Zoroastro em seu aparente dualismo, o Javeh dos judeus que não pode ser descrito, o Allah dos islamitas,  que embora seja o mesmo não é o mesmo que Javeh, e também não é o mesmo Deus todo poderoso e misericordioso dos cristãos. 

Isto é, os povos da Europa foram levados ao obscurantismo da Idade Média pelo seu mito cristão. Coincidentemente na mesma época floresceu o islamismo e os povos árabes vieram a ocupar, além de Oriente Médio e da India, também todo o norte da Africa e o sul da Europa, onde permaneceram por 800 anos. Vieram guiados pelo mito de Allah propagado por Maomé, e sua derrota e decadencia coincidem com uma exacerbação e radicalização deste mito, hoje traduzido em fundamentalismo religioso. 

E é exatamente com o enfraquecimento do mito cristão que vai se iniciar o “renascimento” dos povos europeus, que levará ao iluminismo e à ciencia. Que mitos guiaram estes povos na escalada que lhes daria proeminencia em todas as atividades humanas no planeta: Dom Quixote? Fausto? O jovem Werther? 

Todas as civilizações tiveram seus momentos de grande criatividade e desenvolvimento, épocas áureas, como o século de Péricles entre os gregos, a expansão e as grandes contribuições da cultura árabe à matemática, as invenções e o sistema administrativo dos chineses, e entre tantos outros povos e culturas que habitam este planeta, e  sempre dentro de suas culturas e tradições religiosas.

Uma cultura, porém, se destacou das demais, a partir do que conhecemos como o Iluminismo, raiz do movimento científico que mudou radicalmente o padrão de vida dos povos europeus, estendendo-o aos novos continentes da América e da Oceania.

Este movimento coincide com a retração do poder das Igrejas e dos mitos religiosos, caracterizando-se pelo secularismo que conduziu ao estabelecimento de regimes democráticos e do florescimento do capitalismo.

A cultura européia assumiu a liderança e tornou-se modelo para todos os povos. Aqueles países que conseguiram adotar este modelo, como o Japão, Cingapura, e como agora vem fazendo a China, nada mais fazem do que seguir modelos europeus/americanos. Sem novos ou velhos mitos, adotando a secularização mais ou menos ostensiva.

A pergunta então é: a ausencia de mitos faz falta ao bem estar e ao progresso do ser humano? Ou a perspectiva do possivel fim do trabalho como o conhecemos abrirá novas oportunidades e possibilidades no desenvolvimento das atividades de lazer, que incluem todas as artes? 

A velha questão sobre “o sentido da vida” nunca foi respondida pelas religiões ou pelos mitos. Ela sempre dependeu de nós mesmos para a formulação de propostas de vida e de compreensão da própria  existencia. O que sempre nos ajudará nesta tarefa será…um pouco de poesia!

                                                                                                       rollnagel@terra.com.br

Sobre arte

Arte é o exercício do supérfluo, do dispensável, do desnecessário, do absolutamente inútil. Toda a importancia da arte vem da sua absoluta e total inutilidade. Se fosse útil não seria arte. Inclusive a “arte por encomenda”, que incluiria desde as esculturas de Fídias à Capela Sistina de Michelangelo, à Santa Ceia de Leonardo, ao Réquiem de Mozart, e tantas outras obras-primas, pois mesmo encomendadas para decorar um ambiente ou expressar

musicalmente algum sentimento, elas em si não servem para nada. Se não tivessem sido criadas, ninguém perceberia!

A arte não muda o mundo, ela apenas o reflete através de seus artesãos. Não existe uma linha clara e definida que separe o que consideramos “arte” daquilo que consideramos meramente “artístico” ou “decorativo.”

Todo artesanato é “artístico.” Assim como toda e qualquer ilustração, enfeite, “design” ou “gingle” de anuncio.  Nenhuma arte tem “valor intrínsico.” Uma escultura de Rodin ou Moore tem como valor intrínsico apenas o valor momentaneo e circunstancial do metal em que foi fundida.

Qual é a “essencialidade” de um móbile de Calder, da Guernica de Picasso, ou da 9a. Sinfonia de Beethoven?

Afinal, é tudo meramente “apreciação”. Nós apreciamos uma obre de arte como apreciamos um garoto que dá cambalhotas ou faz algum truque de mágica numa festa, pois dizemos “este garoto é um artista.”                                                                    

Por que ele está fazendo “arte,” não é? E isto se dá em qualquer idioma e em qualquer cultura. O fascinante é que o homem, mesmo antes de aprender a  falar já mostra este impulso de modificar, de formar, de enfeitar, e diríamos “criar”, e isto ocorreu em todos os povos que já existiram em qualquer canto deste planeta tão diverso!

Eu sempre quis saber quem tinha sido aquele primeiro “artista” que “poliu” a pedra lascada antes de qualquer outro, por mero senso estético…e depois teria sido copiado por todos os outros…Mas na verdade não foi bem assim!

Nós chamamos a Idade da Pedra Lascada de Paleolítico

(25.000 a 12.000 anos aC) e depois vem o Neolítico, que seria o da Pedra Polida…mas esta provavelmente foi polida apenas porque foram encontradas pedras mais maleáveis!

Muito antes o homem já tinha deixado suas marcas de “artista” nas cavernas de Lascaux, Altamira, e muitos outros lugares, e já enfeitava o corpo com as tintas que fabricava, e criava uma infinidade de objetos “artísticos”   totalmente inúteis! Mas quando falamos numa peça de teatro ou tocar um instrumento falamos em “to play”,               “spielen”, ou “jouer” uma peça…como pregar uma peça!

Afinal, arte é lazer, e esta é a sua única importância! Lazer!

E esta importância não vem da qualidade da representação em si, mas daquilo que pode estar oculto nesta represen-tação. Não existe nela um objetivo declarado de criar o “belo”ou qualquer outra intenção, além da de simplesmente emocionar!.

Afinal, nós não dizemos “arts & entertainment”?  E é exatamente isto que a arte é: entretenimento. Mas o ser humano, em toda sua pretensão, precisa criar outras intenções, que a arte na verdade não tem. Nós elucubramos sobre o “espírito criativo”, o “impulso artístico”, “a arte como meio de comunicação com o mundo”, como “meio de perpetuação da personalidade”, como meio de “identificação do indivíduo”, de superação da solidão!

Existe certamente um senso estético que é revelado em todas as artes, seja poesia, romance, pintura, escultura ou música, mas o estético não é o essencial. O estético, o belo etc. são absolutamente relativos, dependentes das culturas que o originaram. Arte europeia, arte oriental, arte africana, todas linguagens muito diversas do mesmo impulso!

 A arte se torna maior quando passa a representar atitudes metafísicas diante da vida. Ela registra a dúvida essencial: por que estamos aqui? Desde que o ser humano se reconheceu diferenciado da natureza ele luta para responder a esta questão. Por que ele está só, irremediavelmente só, e a arte nada mais é do que um reflexo desta solidão.

A solidão de ser diferenciado e racional num mundo irracional e de ser imaginativo dentro da monotonia da natureza é o que leva à criação de mitos e deuses. Este é o “pecado original” revelado pela Bíblia judaica. E ele é encontrado em diferentes versões em todos os textos místicos que surgem nos primórdios das civilizações.

A incerteza do ser humano perante o universo está refletida nos Vedas hindus, no Gilgamesh sumério, nos ritos egípcios ao deus Hórus, nos deuses do Olimpo grego, em Zaratustra,

em Confúcio, no Buda e em todas as religiões tribais mundo afora. Ela está em Homero, em Dante, no Dom Quixote, no Dr. Fausto, em Dostoievski, na Montanha Mágica, em Beckett, Kafka, Camus, Joyce, Proust, Pinter…e ela está em todas as artes, mais ou menos explicitamente. Hoje ela reflete mais claramente o declínio das crenças religiosas.

A secularização que se alastra pela Europa a partir da Renascença abre novas dúvidas existenciais, e com isto abre também novos caminhos para as artes e para a filosofia.

O reflexo desta evolução será encontrado na música de Bach, Mozart, Beethoven, Brahms e Wagner, e talvez seja ainda mais evidente nos compositores do Século 20, como Mahler, Strauss, Schostakovitch e Schnittke.

Um dos grandes equívocos sobre a pintura é que ela alguma vez tenha sido essencialmente “retratista”, e que se ocupasse em “reproduzir a realidade”. Nada mais falso.

Isto nem mesmo o artista fotógrafo pretende. A força da arte está em seu autor interpretar ou mesmo transfigurar a realidade conforme sua visão, impondo suas próprias idéias àquilo que retrata. É o que o nosso contemporâneo Francis Bacon declara em suas entrevistas: a realidade deve ser falseada e distorcida a ponto de não ser reconhecida para que possa comover!

A pintura sai do seu “classicismo” através de Cézanne e do impressionismo que levaria irremediavelmente ao abstracionismo. Kandinsky, Picasso, Bracque, os americanos Rothko, Still e Motherwell, e depois o irlandês Bacon abriram novos caminhos para as artes plásticas, acabando por abstrair inteiramente a figura humana. A escultura altamente emotiva de Rodin vai encontrar em Moore e Chadwyck novos intérpretes da condição humana.

Hoje assistimos a crescentes críticas ao materialismo dos nossos tempos, ao consumismo, ao “ter” em vez de “ser”, como se realmente em outros tempos as aspirações humanas teriam sido muito diferentes. Fala-se muito na “ausência de valores”, como se os valores de outras épocas tivessem sido muito diversos. Nunca foram.

É óbvio que as progressivas urbanização e secularização tenham seu preço em termos de insegurança existencial, nosso “pecado original”. Somos seres divididos entre o racional e o emocional, entre o “bem” e o “mal”, direita e esquerda, conservadores e reformistas, material e divino, entre corpo e alma,  yin e yang, e esta dicotomiaestápresente em todas as nossas atividades. A força destaambivalência é o que nos leva à busca do onírico e explica a confissão do artista plástico Cildo Meirelles de que              “a arte é uma inutilidade indispensável”! Afinal, o que são a “arte conceitual” e suas “instalações” senão a prova concreta desta ambigüidade!

Quem descreveu esta condição de forma bastante original foi o maestro e compositor Leonard Bernstein em suas palestras na Universidade de Harvard nos anos 70, demonstrando por que a dissonância é essencial para entendermos a nossa própria ambigüidade. O título das palestras era “the question without answer”, a pergunta sem resposta,  inspirada na composição homônima de Charles Ives nos anos 20. Este é o “pecado original”: a grande dúvida existencial, que jamais será esclarecida!

Mas então vem a pergunta: qual é a força que nos conduz à manifestação artística, a declamar, cantar, dançar, compor, pintar, interpretar, etc  Sobre isto já se escreveram muitos livros e ensaios, mas poucos realmente identificam esta força. Fala-se muito no “impulso criativo” do ser humano,

a um instinto pela harmonia, equilíbrio e ritmo, no desejo de expressar emoções, de experimentar o mistério.

 Seria o medo primal da existência, que nos leva ao desejo de imortalizar-nos. Aristóteles talvez tenha sido o primeiro filósofo a identificar uma raiz da arte simplesmente no prazer de produzir e apreciar uma manifestação artística.

Mas foi Epicuro quem transformou nossa busca pelo prazer

em credo filosófico, ao identificar nosso inato hedonismo.

Esta idéia  é reelaborada por Schiller: o impulso para a arte está  no instinto lúdico, o instinto de brincar que é comum a tantas espécies de mamíferos. Chimpanzés, ursos, cães e gatos que brincam desde a infância até a idade adulta.

É este instinto lúdico que Schiller descreve como  fenômeno harmonioso que une nossos dois mundos, e que Spencer entende como extravaso de excesso de energia!                                                 

Lazarus atribui este impulso a uma tentativa de recuperação da fadiga do mundo real, Groos como exercício preparativo para este mundo, e Wundt ao seu efeito prazeroso.

Isto é, o impulso à arte vem simplesmente do prazer em fazer e apreciar seja qual for a manifestação. A notória tendência do ser humano em elaborar as mais complexas elucubrações para explicar as coisas mais simples impede que isto seja reconhecido. Nós precisamos “buscar o belo”, criar objetos de “comunicação”, transmitir emoções, etc., mas nada disso realmente explica o impulso artístico. Este é simplesmente a busca do prazer, da alegria, da satisfação estética ou sonora, literária e poética!

No deserto do Marrocos foi encontrada uma figura humana esculpida em pedra há mais de cem mil anos, quando nem “sapiens” ainda éramos. Há trinta mil  nossos ancestrais criaram pinturas em paredes de cavernas em Lascaux e em Altamira. A“Madonna de Willemsdorf”  foi esculpida há uns vinte mil anos. É preciso muita “imaginação” para acreditar que estes “artistas” estavam tentando equilibrar seus problemas existenciais, buscando a imortalidade, ou procurando comunicar-se com o mundo…Eles estavam simplesmente dando vazão ao seu instinto lúdico…se divertindo, como fazem escultores de barro nordestinos e índios marajoaras!!

O que estava fazendo Bach quando compunha as variações Goldberg ou as suítes para cello solo, ou as partitas, cantatas, e por aí afora. Acaso teria havido alguém mais brincalhão do que Mozart: tudo o que ele compôs foi simplesmente pelo prazer de compor com prazer.                           E assim tenho certeza que até o sério Beethoven sentiu enorme prazer ao compor suas sonatas, quartetos e concertos. Alegria maior do que a revelada na ode final da 9ª. Sinfonia ele talvez só tenha encontrado em suas constantes visitas aos bordéis!

Tudo na arte tem que ser prazer, vir do prazer, para o prazer. Ele está nas elegias de Rilke, no Homem e o Mar de Hemingway, na queda de Camus, na Metamorfose de Kafka

no Homem sem Qualidades de Musil, até no Idiota de Dostoyevski, no Ferdidurke de Gombrowitz, ou no conto da vaca de Willém Fluesser. Epicuro encontrou  a filosofia do prazer e dela fez a razão do impulso para a vida. O triste evento do cristianismo tentou proibir todo e qualquer prazer para submeter-nos ao seu poder, e conseguiu subjugar a civilização ocidental durante séculos.

A secularização que se sucedeu ao renascimento do mundo europeu para as artes e a filosofia encerrou esta era.

As artes estão confusas, a música muitas vezes inaudível,

pintura e escultura se transformaram em instalações incompreensíveis para os não iniciados.  

Os puristas dirão que existem diferentes “níveis” de arte:

A “arte maior”, “hohe Kunst”, “grand art”… e com certeza Mozart é mais valioso que os Beatles ou Michel Teló, mas o impulso é o mesmo. Afinal o que é o jazz senão brincar com música?!

O importante é que ao apreciarmos qualquer manifestação artística tenhamos em mente que a sua motivação é o nosso inato instinto ao prazer. Ela será certamente mais…prazerosa!

Afinal…todas as nossas atividades são apenas a melhor maneira que encontramos para fugir à realidade!

ref. “Art and Artist”-  Creative urge and personality development

Otto Rank, 1932                                                         

Zen

Quando você ouve alguém falar que fulano está “zen” você sabe que ele deve estar um pouco alheio às coisas…numa “outra”, com sentimentos abstratos!        Isso é “zen”? Também é, mas “zen” é muito mais do que isso! Não pense em zen como uma religião: sim, existem muitos templos zen no Japão, mas o sentido deles é apenas ensinar o que não é zen! O mestre zen dialoga com seus alunos com uma vara na mão, e quando um fala alguma coisa que não cabe no zen…leva uma pancada com a vara. Porque? Porque nós habitualmente falamos muitas coisas totalmente contrarias ao bom sentimento…o que acredita nas coisas como elas são,    que se emociona com o que é belo, que acha graça e lhe dedica sentimentos. Zen é uma atitude perante a vida e o mundo! Não pode ser confundido com uma religião… porque o zen não se “prega”: se transmite silenciosamente! Quem tiver a sorte de achar um exemplar do livro do Prof. Daisetz Suzuki terá muitos exemplos da forma zen de encarar a vida! Zen é isto!

Escrever sobre zen não é difícil, o difícil é escrever com zen! Se não escrevemos com zen…é melhor não escrever nada! Se não conseguimos viver com zen…é melhor não viver e ponto! Zen quer dizer fazer todas as coisas com perfeição, ser derrotado perfeitamente, hesitar perfeitamente, ter cólicas perfeitamente, fazer qualquer coisa perfeita ou imperfeitamente, PERFEITAMENTE!                 

O que quer dizer este perfeitamente? PERFEITAMENTE está   na vontade; perfeitamente está na atividade harmoniosa em todos seus aspectos, e que cumpre seus propósitos inteiramente. PERFEITAMENTE quer dizer que em cada momento a atividade não contenha egoísmo, ou melhor, que o nosso ego assimile a atração e a repulsa do egoísmo da natureza, dentro e fora de nós! Nossa dor não é apenas a nossa dor, é a dor do universo. A “alegria” do universo é também a nossa alegria. Nosso fracasso ou desentendimento é o da natureza, que jamais aspira ou desespera, mas continua tentando até o fim! Zen é ao mesmo tempo irresistivelmente atraente e revoltosamente repugnante, porque finalmente existe um credo no qual não precisamos acreditar. Sem dogmas ou ritual, sem mitologia, sem templo ou pregador, e sem “livro sagrado” – que alívio!!

A própria palavra Zen nos permite perceber que todas as nossas mais profundas experiencias de vida, de música, de arte, de poesia, de humor etc., com todas as suas variações derivadas das mais diversas circunstancias, todas têm uma cor, perfume e um sabor semelhantes, com um elemento comum que parece fundamental.

Esta ideia é obviamente perigosa pelos seus aspectos monísticos, científicos, e filosóficos de tendencias impoéticas. Por isso precisamos insistir na diversidade, pluralidade e nos disparates do zen.

Por outro lado, devemos manter uma unidade assim como uma diversidade, para que a palavra zen reflita esta profundidade de individualidade nas profundezas de nossa vida. Tão profunda deve ser nossa experiencia de diferença: para alguma coisa existir ela deve ter sua individualidade e ao mesmo tempo ter uma existência própria.  

Eu não encontro zen no Buda, nem no budismo até a revelação do Daruma, no 6.o século: Daruma é o monge-símbolo da irreverência zen. Era monge num pequeno mosteiro e foi deixado para varrer o chão do templo enquanto os outros iam buscar lenha. Quando estes voltam encontram o Daruma se aquecendo com uma fogueira feita de uma imagem do Buda. Ante o espanto geral Daruma apenas revela: se o Buda não servir para aquecer meu traseiro…para o que ele serve? Varrer o chão do templo é uma imagem recorrente no zen, simbólica! Mas a ideia zen viria a tornar-se uma “filosofia de vida” apenas no século seguinte com Eno, cujo zen não seria hindu ou chinês. Ele seria na verdade supra-nacional, quase sobre-humano, mas nunca sobrenatural. A efígie do Daruma você vai encontrar em todas as partes e locais do Japão! É o reconhecimento da importância da irreverencia!

Zen é poesia, e a poesia impregna todas as atividades no Japão,assim como o humor. As características fundamentais do humor zen são:

Primeiro: assimetria, inconformismo religioso, ausência de geometricalidade; segundo: simplicidade (abençoados são os puros de coração, detalhes irrelevantes são omitidos); terceiro: maturidade, pois maturidade significa ausência de idade; quarto: naturalidade (talvez a mais difícil! Arte é natural?); quinto: latência: a mais subjetiva (apenas o profundo pode revelar o que é profundo no aparentemente raso, e consegue ver o céu infinito numa poça); sexto: inconvencionalidade : esta é a democracia do zen na qual não existem reis, rainhas, santos e anjos, e nenhum objeto ou dia “sagrados” (na arte isto significa que não existe “grande motivo” nem mesmo um “tratamento nobre”); sétimo quietude: a mente e o corpo nunca se afastam do centro de gravidade, que é o centro do universo (na arte quietude não significa apenas uma paisagem tranquila, mas que as linhas e cores tenham um objetivo comum e se apoiem mutuamente).

“Um bosque, uma lagoa, uma rã mergulha!”

“A lua curte com prazer… olhe ao seu redor quando o céu está claro”.

“Qualquer flor aprecia o ar que respira”

“O rio corre ao seu próprio doce desejo”

“Os ramos trêmulos estenderam suas folhas  para colher a brisa fresca;  

“O amor verdadeiro queimando sempre na mente nunca adoece, nunca envelhece, nunca morre, nunca por si mesmo revirando…”

Amor e morte não se comunicam: um não pode prevalecer sobre o outro, pois existem em mundos diversos, um poético, imemorial, e o outro científico, temporal. O amor de Lear, e o amor de Cordelia são coisas transcendentais, sobre as quais é impossível desesperar.  

Liberdade significa liberdade da emoção, do pensamento, da beleza, da lei, de si mesmo, de Deus. Sobra o quê? De acordo com a experiencia zen apenas com o sumiço destes semideuses pode permanecer o Todo: a poesia permanece. A arte se submete à lei para que a liberdade se manifeste por contraste. A liberdade significa viver o destino estabelecido e (realmente) gostar do que você faz em vez de fazer o que você (acha) que gosta!

Afinal zen é zen! Humor é alegria, alegria é sexo, e sexo é latente, e a idade vem naturalmente, e a natureza é cheia de alegria, e assim o show continua!

“O coqueiro se curva sem esforço”                                

ref. Zen and zen Classics, R.H.Blyth, Hokusaido Press, 1957