Nesta era tão conturbada, em que o secularismo avança em algumas áreas, e em que as mais variadas seitas religiosas tomam o centro da vida de milhões de pessoas em outras, surge frequentemente a questão: seria a religião um componente realmente necessário para o bem estar social? As respostas são contraditórias!
No estudo publicado em 2005 pelo Journal of Religion & Society,
“Correlações Nacionais Mensuráveis entre Bem-estar Social e a Religiosidade Popular e o Secularismo em Democracias Avançadas”
o sociólogo americano Gregory Paul encontrou uma relação inversa
entre religiosidade (medida pela crença em Deus, leitura bíblica, frequencia de orações e participação em cultos) e o bem-estar social
(medido pelas taxas de homicídio, mortalidade infantil, expectativa de vida, taxa de doenças sexualmente transmissiveis, gravidez e aborto em adolescentes) em 18 países democráticos economicamente desenvolvidos.
“De um modo geral, índices mais elevados de fé e religiosidade coincidem com taxas mais altas de homicidio, mortalidade juvenil e adulta precoces, doenças venéreas, e gravidez juvenil.” E os Estados Unidos, que apresentam o mais alto índice de religiosidade entre os paises desenvolvidos, também registram de longe os mais altos índices nestas nefastas mazelas sociais.
Por outro lado, o Prof.Arthur C.Brooks comenta em seu livro
Quem Realmente se Importa que, quando se trata de filantropia e voluntarismo, os estudos estatísticos fácilmente desmascaram o mito dos “bem intencionados e voluntariosos socialistas” em favor dos
“desalmados conservadores”.
Conservadores, geralmente mais religiosos, dão 30% mais dinheiro (mesmo consideradas as faixas de renda), doam mais sangue e horas de trabalho voluntario do que seus semelhantes não religiosos. De um modo geral, conservadores dão tres vezes mais a qualquer tipo de caridade, 20% a mais a instituições não religiosas, e têm uma propensão 60% maior em ajudar um próximo em dificuldades do que os não religiosos. Em termos de bem-estar social, as pessoas que fazem caridade são 50% mais propensas a se declararem “muito felizes” do que as que não fazem, e 24% mais propensas a declararem ter “uma ótima saúde”.
Os americanos dividem muito as coisas entre “direita” e “esquerda”,
conservadores e liberais, “Republicanos” e “Democratas”. Seriam as diferenças entre estes grupos religiosamente tão profundas? Conforme o Prof. Pippa Norris de Harvard em seu livro O Sagrado e o Secular, um Estudo Comparativo de Sistemas Eleitorais, que analisou 37 eleições presidenciais e parlamentares em 32 países nos últimos 10 anos, demonstrou que 70% das pessoas de confissão religiosa (que frequentam cultos pelo menos uma vez por semana)
votaram em partidos conservadores. Apenas 45% dos não religiosos votaram nestes partidos. O efeito nos EUA é surpreendente: nas eleições de 2000, por exemplo, “a religião foi de longe o fator decisivo para quem votou em Bush e quem votou em Gore, minimizando amplamente os fatores classe social, profissão e região”.
Uma teoria de “capital social” poderia ajudar a entender estas discordancias. Para o sociólogo Robert Putnam “capital social” quer dizer “conexões entre pessoas, isto é, as redes de relações e normas de reciprocidade e confiança que surgem entre elas”. Em sua análise
das informações do Estudo de Valores Mundiais, Norris e Inglehart
encontraram uma correlação positiva entre a “participação religiosa” e a participação em “associações comunitárias não-religiosas”, incluindo associações femininas, de jovens, para a paz, de ação social, direitos humanos e conservação ambiental.
“Ao prover locais de encontro comunitários, que ligam vizinhos e promovem o altruismo, as instituições religiosas da maioria das confissões (mas não de todas!) parecem estimular os laços que constituem a vida cívica.”
O capital social religioso leva à generosidade e à vida comunitária,
mas, estranhamente, não conduz a uma redução de homicídios, gravidez e aborto juvenis, etc., mais contidos em populações não-religiosas. Isto pode ter qualquer uma de três razões:
- que estes problemas decorrem de outros problemas não afins;
- que o capital social secular é mais eficiente nestes assuntos;
- que estes problemas podem estar relacionados ao que se poderia chamar de “capital moral”, ou seja, as relações dentro do próprio indivíduo que são promovidas no ambiente famíliar,
que é a entidade social fundamental que evoluiu históricamente
entre nós muito antes das religiões, dos governos e das leis.
Assim, a moderação do comportamento agressivo e sexual é mais fácilmente alcançada pela família, seja ela religiosa ou secular!
Adaptado de “Is religion good for society?”, de Michael Shermer
Scientific American, 2006