O problema original

Estudando um pouco a antropologia moderna percebemos que o verdadeiro problema original do ser humano é sua relação ambígua com a natureza. Quando o homem atinge o nível “sapiens”, em torno de 100.000 anos atrás, ele se vê dentro da natureza, mas percebe que não faz mais parte integral dela, porque ele sente que pode julgá-la. E ele percebe que sua condição de existência não é permanente e assegurada:             ele percebe que sua existência é finita, e que terá que morrer, desaparecer, ser extinto, dele restando apenas um corpo inanimado.  Esta é a consciência que o leva a tentar transcender esta condição através de heroísmos e símbolos padronizados.

A natural e inevitável ânsia em negar a mortalidade e alcançar uma autoimagem heroica são as causas primarias da maldade humana. A ferramenta maior para a subsistência nesta condição é a autoestima. O homem fará tudo o que for possível para se impor aos seus convivas, mostrar sua superioridade, e realizar algo que possa ser lembrado para assegurar sua “permanência” no universo. E esta é a maior fonte de angústia do ser humano.

Esta solidão vai leva-lo à busca de outras entidades, ao misticismo, e ao desenvolvimento do ritual para se manter dentro desta natureza, que ele não entende. E ele então vai rejeitar a natureza porque quer estar acima e dela usufruir.               Mas, ele não cria os deuses, porque os deuses e os demônios já estão dentro dele, ele só cria o ritual, que é uma técnica para dar vida. Ao longo de toda a pré-história o homem acreditou que podia controlar a vida, que podia transferir a vida de um local para outro mediante cantos e danças, e num sentido mais amplo, fazer a renovação de todo o universo, do sol e da terra e criar vida, incluindo a alma individual.

 A preocupação do homem primitivo é a sua “permanência”, sua continuidade, e esta aspiração permanece no homem moderno, que também não quer “morrer”, e quer ter uma “vida após a morte”, que sua “alma” tenha continuidade. Para o homem primitivo a morte é frequentemente considerada uma promoção final da alma a um estado de poder super-humano e durabilidade eterna, sentimento que permanece em muitas religiões.

A história humana se divide em dois grandes períodos, o primeiro desde a pré-história caracterizada pela visão ritualista da natureza, e a segunda, a partir da Renascença e do Iluminismo, caracterizada pelo domínio do processo científico e da industrialização, e sua visão do mundo. 

A superioridade que o homem adquire sobre os demais, pela sua capacidade de se distinguir ou superar contendores, se traduz em poder, e este poder vai conduzir os seus caminhos sempre. Mas a natureza também lhe deu uma fantástica capacidade de imaginar, sonhar, e percorrer os mais extraordinários caminhos intelectuais: criar a ciência e as artes, formando o que chamamos de cultura…palavra que deriva de culto!

A sociedade primitiva era uma organização formal para a apoteose do homem. Nossos rituais de hoje parecem superficiais exatamente porque perderam a conexão cósmica. O homem primitivo humanizou os céus e espiritualizou a terra unindo-a com o céu numa unidade inextricável. Opondo cultura e natureza desta maneira , o homem  assumia um destino espiritual que permitia transcender sua condição animal adquirindo um status especial: não era mais um animal que morria e desaparecia da terra, ele era um criador de vida que também podia ganhar a vida eterna através dos ritos comunais de regeneração cósmica.

Das muitas religiões que se formaram entre o quinto século AC e o primeiro século atual, uma chegou a propor que o ser humano tivesse um pecado “original” congênito, refletindo a “queda” e expulsão de um “Paraíso” imaginário do primeiro casal de humanos, fantasia que acompanha muitos crentes até hoje.

Mas o ser humano primitivo realmente carregava uma culpa:     sua insegurança e incapacidade de se entender um animal que sabe que não faz mais parte integral da natureza.                                         Esta é a culpa que ele carrega e que o leva ao ritual e ao sacrifício, imprescindível para sua realização.                                                                                                             E tudo mais que ele fizer será para superar esta culpa.                                Sem jamais esquecer que é apenas um animal.

Resumindo:

o grande problema do ser humano é o fato de…ser humano!    

(aliás, a verdadeira razão para entender porque nunca deixará de haver racismo!)

Ref. “Escape from Evil, Ernest Becker, 1975                                     

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