A partir de uma passagem em “Aspects of Wagner” de Brian Magee
O ponto mais alto jamais atingido pela criatividade humana foi a tragédia Grega. Ela combinava com sucesso todas as artes: a poesia, o drama, vestuário, mímica, música instrumental, dança, canção, arquitetura e iluminação, e por isto tinha maior força de expressão do que qualquer das artes por si. Além disto, a tragédia retirava seus temas da mitologia, que ilumina a experiencia humana na sua profundidade, e de maneira universal.
O que é peculiar ao mito é que ele é verdadeiro para sempre, e seu conteúdo, mesmo quando tenso ou compacto, é inesgotável e válido em qualquer época. Tanto o conteúdo como a forma de apresentação do mito têm um significado religioso, mas esta religião é a do essencialmente humano, uma celebração da vida, como no coral de abertura da Antígone de Sófocles: “Inúmeras são as maravilhas do mundo, mas nenhuma é tão maravilhosa quanto o Homem…”
Esta maneira de apresentar a arte era ideal por que ela se expressava através de todas as suas formas e sua temática refletia toda a experiencia humana, e principalmente por que toda a comunidade participava de sua execução: era a celebração da vida. Mas com o tempo ela se desintegrou, e cada arte seguiu seu próprio caminho: música sem palavras, poesia sem musica, drama sem música nem poesia, e assim por diante. E o seu conteúdo acabou se desfazendo quando o Cristianismo veio substituir o humanismo grego.
O Cristianismo é a religião que colocou o homem contra si mesmo, ensinando-o a olhar o seu corpo com vergonha, as suas emoções com suspeita, a sensualidade com temor, e o amor sexual com sentimento de culpa. Ele ensina que esta vida é um tormento, que este mundo é um vale de lágrimas, e que nossa capacidade de suportar o sofrimento será recompensada apenas depois da morte, que é a porta para a eterna felicidade.
Esta religião só poderia ser contra a arte. A alienação do homem de sua propria natureza, especialmente de sua natureza emocional, a profunda e generalizada hipocrisia que esta atitude geraria ao longo dos tempos, a desvalorização da vida e do mundo e consequentemente da sua excepcional beleza, a idéia de o homem ser não um deus mas um verme cheio de culpa, tudo isto é profundamente contrário à própria natureza e à existencia da arte.
Esta religião, baseada que é na celebração da morte e no repúdio às emoções, rejeita o impulso criativo e seus temas de expressão.
A arte é uma celebração, explorando a vida em todos os aspectos. Se a vida não é importante – mero preludio para uma outra vida que deve começar com a morte – então a arte também não deve ter importancia e é inteiramente dispensavel. No mundo ocidental, a arte só voltará a merecer a verdadeira atenção dos homens á medida que lentamente se apaga a força do Cristianismo, a partir da reforma luterana e com a evolução do pensamento científico, de Spinoza, Descartes, Bacon, Newton e Darwin, que levam ao secularismo e aos direitos do indivíduo.
Na Renascença vai lentamente ressurgir a força do mito (e da tragédia) em Dante (A Divina Comédia), depois em Shakespeare (Hamlet, Romeu e Julieta), em Goethe (Fausto), e principalmente na restauração da obra plena, da ópera integral em Mozart (A Flauta Magica, Don Giovanni), Verdi (Aída), em Wagner (Siegfried e os Nibelungos, Parsifal), e em Strauss (Salomé, Elektra).
Terão sido duas grandes guerras, a bomba atomica, a ameaça soviética, e o ressurgimento dos fundamentalismos religiosos os causadores de uma alienação dos mitos, e da atual estagnação… dita “pós-moderna”?
Ou seria esta uma visão “tradicional”, na qual a religião não se confunde com o mito? Qual é a diferença entre mito e religião? Nós estudamos “mitologia grega”, que inclui desde a lenda do minotauro de uma civilização pré-helênica até os deuses do Olimpo, que eram as figuras de uma verdadeira religião, para historiadores a “religião tradicional” que depois viria a ser conhecida erroneamente como “paganismo”.
Talvez o correto seria distinguir entre os mitos históricos, comuns a todos os grupos humanos desde a sua formação, que encontramos tanto entre as tribos africanas ou ameríndias como em Homero, a Guerra de Tróia e as provações de Ulisses, e os mitos religiosos, que pretendem explicar e conduzir os destinos humanos.
Sob esta perspectiva, também não passam de mito os deuses do vale do rio Indus descritos pelos Vedas e no Baghavad-gita, por Zoroastro em seu aparente dualismo, o Javeh dos judeus que não pode ser descrito, o Allah dos islamitas, que embora seja o mesmo não é o mesmo que Javeh, e também não é o mesmo Deus todo poderoso e misericordioso dos cristãos.
Isto é, os povos da Europa foram levados ao obscurantismo da Idade Média pelo seu mito cristão. Coincidentemente na mesma época floresceu o islamismo e os povos árabes vieram a ocupar, além de Oriente Médio e da India, também todo o norte da Africa e o sul da Europa, onde permaneceram por 800 anos. Vieram guiados pelo mito de Allah propagado por Maomé, e sua derrota e decadencia coincidem com uma exacerbação e radicalização deste mito, hoje traduzido em fundamentalismo religioso.
E é exatamente com o enfraquecimento do mito cristão que vai se iniciar o “renascimento” dos povos europeus, que levará ao iluminismo e à ciencia. Que mitos guiaram estes povos na escalada que lhes daria proeminencia em todas as atividades humanas no planeta: Dom Quixote? Fausto? O jovem Werther?
Todas as civilizações tiveram seus momentos de grande criatividade e desenvolvimento, épocas áureas, como o século de Péricles entre os gregos, a expansão e as grandes contribuições da cultura árabe à matemática, as invenções e o sistema administrativo dos chineses, e entre tantos outros povos e culturas que habitam este planeta, e sempre dentro de suas culturas e tradições religiosas.
Uma cultura, porém, se destacou das demais, a partir do que conhecemos como o Iluminismo, raiz do movimento científico que mudou radicalmente o padrão de vida dos povos europeus, estendendo-o aos novos continentes da América e da Oceania.
Este movimento coincide com a retração do poder das Igrejas e dos mitos religiosos, caracterizando-se pelo secularismo que conduziu ao estabelecimento de regimes democráticos e do florescimento do capitalismo.
A cultura européia assumiu a liderança e tornou-se modelo para todos os povos. Aqueles países que conseguiram adotar este modelo, como o Japão, Cingapura, e como agora vem fazendo a China, nada mais fazem do que seguir modelos europeus/americanos. Sem novos ou velhos mitos, adotando a secularização mais ou menos ostensiva.
A pergunta então é: a ausencia de mitos faz falta ao bem estar e ao progresso do ser humano? Ou a perspectiva do possivel fim do trabalho como o conhecemos abrirá novas oportunidades e possibilidades no desenvolvimento das atividades de lazer, que incluem todas as artes?
A velha questão sobre “o sentido da vida” nunca foi respondida pelas religiões ou pelos mitos. Ela sempre dependeu de nós mesmos para a formulação de propostas de vida e de compreensão da própria existencia. O que sempre nos ajudará nesta tarefa será…um pouco de poesia!
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