Quando você ouve alguém falar que fulano está “zen” você sabe que ele deve estar um pouco alheio às coisas…numa “outra”, com sentimentos abstratos! Isso é “zen”? Também é, mas “zen” é muito mais do que isso! Não pense em zen como uma religião: sim, existem muitos templos zen no Japão, mas o sentido deles é apenas ensinar o que não é zen! O mestre zen dialoga com seus alunos com uma vara na mão, e quando um fala alguma coisa que não cabe no zen…leva uma pancada com a vara. Porque? Porque nós habitualmente falamos muitas coisas totalmente contrarias ao bom sentimento…o que acredita nas coisas como elas são, que se emociona com o que é belo, que acha graça e lhe dedica sentimentos. Zen é uma atitude perante a vida e o mundo! Não pode ser confundido com uma religião… porque o zen não se “prega”: se transmite silenciosamente! Quem tiver a sorte de achar um exemplar do livro do Prof. Daisetz Suzuki terá muitos exemplos da forma zen de encarar a vida! Zen é isto!
Escrever sobre zen não é difícil, o difícil é escrever com zen! Se não escrevemos com zen…é melhor não escrever nada! Se não conseguimos viver com zen…é melhor não viver e ponto! Zen quer dizer fazer todas as coisas com perfeição, ser derrotado perfeitamente, hesitar perfeitamente, ter cólicas perfeitamente, fazer qualquer coisa perfeita ou imperfeitamente, PERFEITAMENTE!
O que quer dizer este perfeitamente? PERFEITAMENTE está na vontade; perfeitamente está na atividade harmoniosa em todos seus aspectos, e que cumpre seus propósitos inteiramente. PERFEITAMENTE quer dizer que em cada momento a atividade não contenha egoísmo, ou melhor, que o nosso ego assimile a atração e a repulsa do egoísmo da natureza, dentro e fora de nós! Nossa dor não é apenas a nossa dor, é a dor do universo. A “alegria” do universo é também a nossa alegria. Nosso fracasso ou desentendimento é o da natureza, que jamais aspira ou desespera, mas continua tentando até o fim! Zen é ao mesmo tempo irresistivelmente atraente e revoltosamente repugnante, porque finalmente existe um credo no qual não precisamos acreditar. Sem dogmas ou ritual, sem mitologia, sem templo ou pregador, e sem “livro sagrado” – que alívio!!
A própria palavra Zen nos permite perceber que todas as nossas mais profundas experiencias de vida, de música, de arte, de poesia, de humor etc., com todas as suas variações derivadas das mais diversas circunstancias, todas têm uma cor, perfume e um sabor semelhantes, com um elemento comum que parece fundamental.
Esta ideia é obviamente perigosa pelos seus aspectos monísticos, científicos, e filosóficos de tendencias impoéticas. Por isso precisamos insistir na diversidade, pluralidade e nos disparates do zen.
Por outro lado, devemos manter uma unidade assim como uma diversidade, para que a palavra zen reflita esta profundidade de individualidade nas profundezas de nossa vida. Tão profunda deve ser nossa experiencia de diferença: para alguma coisa existir ela deve ter sua individualidade e ao mesmo tempo ter uma existência própria.
Eu não encontro zen no Buda, nem no budismo até a revelação do Daruma, no 6.o século: Daruma é o monge-símbolo da irreverência zen. Era monge num pequeno mosteiro e foi deixado para varrer o chão do templo enquanto os outros iam buscar lenha. Quando estes voltam encontram o Daruma se aquecendo com uma fogueira feita de uma imagem do Buda. Ante o espanto geral Daruma apenas revela: se o Buda não servir para aquecer meu traseiro…para o que ele serve? Varrer o chão do templo é uma imagem recorrente no zen, simbólica! Mas a ideia zen viria a tornar-se uma “filosofia de vida” apenas no século seguinte com Eno, cujo zen não seria hindu ou chinês. Ele seria na verdade supra-nacional, quase sobre-humano, mas nunca sobrenatural. A efígie do Daruma você vai encontrar em todas as partes e locais do Japão! É o reconhecimento da importância da irreverencia!
Zen é poesia, e a poesia impregna todas as atividades no Japão,assim como o humor. As características fundamentais do humor zen são:
Primeiro: assimetria, inconformismo religioso, ausência de geometricalidade; segundo: simplicidade (abençoados são os puros de coração, detalhes irrelevantes são omitidos); terceiro: maturidade, pois maturidade significa ausência de idade; quarto: naturalidade (talvez a mais difícil! Arte é natural?); quinto: latência: a mais subjetiva (apenas o profundo pode revelar o que é profundo no aparentemente raso, e consegue ver o céu infinito numa poça); sexto: inconvencionalidade : esta é a democracia do zen na qual não existem reis, rainhas, santos e anjos, e nenhum objeto ou dia “sagrados” (na arte isto significa que não existe “grande motivo” nem mesmo um “tratamento nobre”); sétimo quietude: a mente e o corpo nunca se afastam do centro de gravidade, que é o centro do universo (na arte quietude não significa apenas uma paisagem tranquila, mas que as linhas e cores tenham um objetivo comum e se apoiem mutuamente).
“Um bosque, uma lagoa, uma rã mergulha!”
“A lua curte com prazer… olhe ao seu redor quando o céu está claro”.
“Qualquer flor aprecia o ar que respira”
“O rio corre ao seu próprio doce desejo”
“Os ramos trêmulos estenderam suas folhas para colher a brisa fresca;
“O amor verdadeiro queimando sempre na mente nunca adoece, nunca envelhece, nunca morre, nunca por si mesmo revirando…”
Amor e morte não se comunicam: um não pode prevalecer sobre o outro, pois existem em mundos diversos, um poético, imemorial, e o outro científico, temporal. O amor de Lear, e o amor de Cordelia são coisas transcendentais, sobre as quais é impossível desesperar.
Liberdade significa liberdade da emoção, do pensamento, da beleza, da lei, de si mesmo, de Deus. Sobra o quê? De acordo com a experiencia zen apenas com o sumiço destes semideuses pode permanecer o Todo: a poesia permanece. A arte se submete à lei para que a liberdade se manifeste por contraste. A liberdade significa viver o destino estabelecido e (realmente) gostar do que você faz em vez de fazer o que você (acha) que gosta!
Afinal zen é zen! Humor é alegria, alegria é sexo, e sexo é latente, e a idade vem naturalmente, e a natureza é cheia de alegria, e assim o show continua!
“O coqueiro se curva sem esforço”
ref. Zen and zen Classics, R.H.Blyth, Hokusaido Press, 1957